quinta-feira, 23 de maio de 2013

Olhar no silêncio


Há uma desventura em cada olhar. Um indistinto sinal de uma mácula interior imanente. É neste código que se desvendam as omissões.
O optimismo socorre-se de farsas versejadas.  A convicção do arejo das ideias, da bendita do futuro, é a falácia do demagogo. O tempo não confere alívio. A correnteza dos dias repassam as nódoas passadas.
É no olhar que encontramos o eco das incertezas, das angústias, das demissões da esperança. Apenas a expressão da vista é verdadeira. Importa saber reconhecer essa anunciação. É aí que tudo se encontra, a tremenda revelação da única verdade.
De nada importa a conversa. A transacção das ideias é o jogo dos farsantes, que buscam razões, confundindo-as com justificações, sem nada compreenderem. Deixemo-nos ficar em silêncio, rente à almofada e olhemos. Tombemo-nos um no outro em secreto intimismo. Adoremos o fulgor da única verdade desvendar-se nas cambiantes expressivas de um olhar, no instante de cumplicidade íntima, quedados, sem pronúncia do verbo que maltrata o amplexo das almas.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Litania


Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu.


Livro do desassossego (Bernardo Soares - Fernando Pessoa)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp´rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.



Fernando Pessoa in Mensagem

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Tresvariar


Por vezes gostava de poder esquecer.
Viver liberto das peias da memória.
Andar sem embaraços, em consonância com a exaltação de cada instante.
Berrar a pleno pulmão a vontade íntima de um segredo que omito.

Desejaria a espaços ser, o que não sou.
Aniquilar a responsabilidade.
Deixar desmoronar a vontade de me consolar na boa consciência dos meus actos.

É na incongruência da paixão e na inconsequência do ardor em desatino, que me revejo.
É aí que se encontra o meu segredo,
quando na calada da noite enalteço a candura de um olhar,
a frescura de um sorriso,
o efeito inebriante de um cheiro
e repasso diálogos que nunca terei,
de que tiraria consolos e apaziguamentos ininterruptos.
A comunicação humana faz-se de acertos em nódulos de informação eternamente confundidos.

I Died For Beauty

I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.
He questioned softly why I failed?
"For beauty," I replied.
"And I for truth - the two are one;
We brethren are," he said.


And so, as kinsmen met a-night,
We talked between the rooms,
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names. 
Emily Dickinson




quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sossego

Amiúde debato-me com a futilidade da introspecção. O tempo sugere-me quão dispensável é o que na realidade somos. É bastante a todo o momento o que aparentamos, ou damos forma. Para quê pensar, quando nada nos leva para lá desta fracção de tempo, ou nos torna divisível. Nunca nos ultrapassaremos na nossa condição de minúsculas amostras de matéria, reflexo de uma amalgama que o Universo na sua indecifrável complexidade tolerou, em breves instantes de um tempo Cósmico.

Como é bom deixar-me levar pelo tempo. Seguir em alegre contemplação a queda da folha da árvore, sem certezas, nem explicações. Naquele movimento errante percorrido até se deixar deitar no solo em repouso, em antecipação da putrefacção que a natureza escrupulosamente preparou para a matéria do Carbono.

Deixo-me respirar o momento, cada momento, em contemplação, sem aspirações nem molduras, e então talvez me reencontre com o sossego.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Memória do dia

Há uma conjugação eternamente insolúvel nas contradições entre os constrangimentos magnânimes e sempre urgentes da vida profissional que nos dilaceram, em desacerto com as minudências de uma vida que se arrasta e que tem a seu cargo tudo o que está por fazer, as inúmeras boas razões por preencher, as metas generosas que deixamos por alcançar.

Não há modo de preconizar bom resultado num jogo sem solução. O estado de alma na sua sempre frágil condição é antes demais uma resultante. Não direi uma bissectriz de um jogos de forças adversas, talvez sim a medida de uma efervescência, tão intensa quanto maior a dissonância expressa.

E todavia, a espaços somos levados exercer o direito à fé. Uma emanação da crença. Alimentamos uma esperança, sem substância, nem contorno. Consumamos todo o bom propósito de fazer num rasgo, o reflexo de uma dádiva que refresque a alma. Nesse instante somos diferentes, deixamo-nos levar na fugaz verdade comovente de um bem-estar sem medida. E agarramo-nos sem recusa, apesar de toda a reserva imposta pelo senso. Queremos e isso basta. Como é bom querer e desejar querer.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dos limites do julgamento Moral





The administration of the great system of the universe ... the care of the universal happiness of all rational and sensible beings, is the business of God and not of man. To man is allotted a much humbler department, but one much more suitable to the weakness of his powers, and to the narrowness of his comprehension: the care of his own happiness, of that of his family, his friends, his country.... But though we are ... endowed with a very strong desire of those ends, it has been entrusted to the slow and uncertain determinations of our reason to find out the proper means of bringing them about. Nature has directed us to the greater part of these by original and immediate instincts. Hunger, thirst, the passion which unites the two sexes, and the dread of pain, prompt us to apply those means for their own sakes, and without any consideration of their tendency to those beneficent ends which the great Director of nature intended to produce by them.


Adam Smith in






segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Suspiro intranquilo

Atormento-me demasiadas vezes por razões incertas, que nem a mais experimentada compreensão da condição humana consegue tornar perceptível. Trata-se de uma dor vivida, impregnada de angústia, que leva a um caminho feito de nada. Fundada num evento que apenas o contexto dá valor, mas nada de fundo, sério, ou substantivo.

Com a mesma frequência me interrogo, para quê tanta incerteza? De onde vem esta lamúria oca, inconsequente e fútil?

Não há boas resposta para perguntas débeis. É espúrio o esforço daquele que procura criar consistência sobre um saco de vento. Tudo é vago, imponderado e condoído.

Adivinho o sinal de uma razão pueril, mimada pela sorte, impreparada para a adversidade, que se sente impotente de encontrar propósito para as suas acções. Se recusa a ser agente. Não encontra modo de ser determinante num destino, que é só seu, condição da maior solidão do mundo.

Escusado será o choro. Ridículo é o escrutínio de cada momento. Sugere-se a referência atenta à sabedoria dos antigos. Eles são fonte inspiradora da maior serenidade. Cimentam o saber na certeza da fragilidade do traço humano. Não há obras perenes. Encontramos antes rasgos momentâneos, que os contemporâneos, por deslumbramento, confusão, ou conformismo, aplaudem, ou pateiam por motivações extemporâneas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

sábado, 29 de setembro de 2007

Ecos de Leaves of Grass



I too am not a bit tamed, I too am untranslatable,
I sound my barbaric YAWP over the roofs of the world.
Walt Whitman

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Complexidades



Relativity


















Escher

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Missão Cassini a Saturno

Imagens de espanto como esta e outras no link da National Geographic Magazine (clicar no título do post).

Leituras

"(...)a Vida imita a Arte muito mais do que a Arte imita a Vida. Isto resulta não apenas do instinto imitativo da vida, mas do facto de o fim confesso da Vida ser o de encontrar expressão, e o de a Arte lhe oferecer algumas formas belas através das quais poderá realizar a sua energia."

Oscar Wilde in O Declínio da Mentira